Edu Falaschi em São Paulo: celebrando muitas vidas em uma única noite

Texto e Fotos por Eduardo Carvalho
Assessoria de imprensa: Thiago Rahal Mauro (TRM Press)

Como fazer 35 anos de carreira caberem em apenas três horas? Praticamente impossível. Talvez esse tenha sido, desde o princípio, o delicioso problema da noite de 15 de agosto de 2026. Quando a trajetória atravessa Mitrium, Venus, Symbols, Angra, Almah e uma carreira solo já extensa, qualquer setlist será também uma coleção de escolhas e renúncias. Para cada música tocada, outra ficará pedindo passagem. Foi nesse território, entre aquilo que coube e tudo que inevitavelmente ficou de fora, que Edu Falaschi colocou sua história diante do público reunido
no Tokio Marine Hall, em São Paulo.

Fotos por Eduardo Carvalho

A melhor maneira de olhar para esse show talvez não seja buscar uma retrospectiva perfeita. Foi mais interessante enxergá-lo como um álbum de fotografias aberto em movimento: algumas páginas amareladas, outras ainda recém-impressas. O mérito maior da noite foi justamente provar que Edu não vive apenas do que já construiu. Há passado em abundância, mas o presente também quer espaço.

Antes do primeiro Edu, outro Falaschi

Às 19h45, o sobrenome já estava no palco, mas era Tito. A semelhança timbrística entre os irmãos aparece imediatamente. Tito também impressiona pelo alcance vocal, mas permanecer somente na comparação seria injusto. Multi-instrumentista, produtor e engenheiro de áudio, ele se apresentou com baixo nas mãos, palhetas e dedos trabalhando forte e muita personalidade, divulgando o recém-lançado segundo álbum, Time to Move On, além de antecipar novas datas para a turnê.

O repertório passeou pelo heavy metal e hard rock com forte atenção à melodia. A influência de Tears for Fears e Pink Floyd (bandas que já teve bandas tributo, inclusive) ajuda a explicar essa amplitude, enquanto The Evil That Men Do, do Iron Maiden, serviu de ponte imediata com o público. Tito saiu do palco deixando algo mais interessante do que uma simples boa impressão: curiosidade para descobrir onde termina a semelhança entre os irmãos e começa sua assinatura pessoal.

Setlist de Tito Falaschi

  1. Fight for Freedom
  2. Mirror
  3. The World Is Falling
  4. War
  5. Leave It All Behind
  6. Time to Move On
  7. The Evil That Men Do (Iron Maiden)

O disparo que demorou a acontecer

Por volta das 21h10, a silhueta de Marcus Cézar surgiu na percussão e a produção visual revelou sua escala. Luzes, efeitos e pirotecnia preparavam terreno para Watchers of the Light. O curioso é que, para uma celebração de 35 anos, eu esperava que a primeira música funcionasse como um disparo. Não funcionou. A pirotecnia explodia mais do que o público. A banda estava precisa, mas a reação diante do palco parecia contida. Não é uma música ruim; apenas não me pareceu a melhor escolha para ser a porta de entrada da noite.

Ego Painted Grey começou a mudar a temperatura. Raphael Dafras abriu a passagem com um baixo que faz parte da identidade da música, trazendo de volta o injustamente esquecido Aurora Consurgens. É também uma composição muito adequada à voz atual de Edu: menos dependente de extremos agudos, permite peso, interpretação e corpo. Esse ponto se repetiria mais tarde em A Monster in Her Eyes e Arising Thunder, músicas que hoje parecem envelhecer junto com quem as canta, em vez de exigir que ele dispute constantemente com a própria
juventude.

Escavando a própria história

A celebração ganhou verdadeiro sentido quando o palco começou a abrir gavetas menos óbvias. Em Eyes in Flames, o período do Symbols retornou com Demian Tiguez e Tito Falaschi. As vozes dos irmãos têm parentesco, mas não são duplicatas; justamente essa pequena distância entre elas produz o efeito mais bonito. Tito sobe com segurança, Edu ocupa outra região, e os dois se encontram no meio. Por alguns minutos, os 35 anos deixaram de ser conceito e viraram presença.

Echoes of Vows trouxe uma balada que inicia delicada, com Edu ao violão e bolhas de sabão (!!!) atravessando a luz, mas cresce até alcançar aquela escala grandiosa típica de sua escrita. Victor Franco sustenta um tema de guitarra memorável. No final, Edu deixa escapar os primeiros acordes de Tears of the Dragon, de Bruce Dickinson. Pequena piscadela, grande recompensa para quem reconheceu.

Fotos por Eduardo Carvalho

Foi em Running Alone que público e palco pareceram finalmente ocupar o mesmo lugar. A reação veio quase em uníssono. Também foi um dos momentos em que Edu caminhou mais antes de começar a cantar, antes de retornar ao centro e ao teleprompter. É impossível ignorar esse recurso na performance atual: depois de tudo que enfrentou com a voz, utilizar o apoio do monitor parece funcionar como porto seguro. As letras estão ali, o olhar volta constantemente para a tela e o corpo se desloca menos. Talvez seja o preço de uma administração vocal mais
segura. É compreensível, embora reduza a liberdade cênica que marcou outras fases de sua carreira.

Eyes of Time, do Mitrium, justificou por si só a existência de uma turnê comemorativa. Edu contou que não a executava desde 1994, quando o grupo abriu para o Angra na época de Angels Cry. A composição mostra um Falaschi ainda em formação: mais bruto, quase punk em alguns momentos, misturado a um hard rock que lembra Skid Row. Não há ainda a grandiloquência que viria depois, e justamente por isso ela merece ser ouvida. Biografia também é feita do tempo em que um artista ainda procurava sua própria linguagem.

Fotos por Eduardo Carvalho

As escolhas que funcionaram e as que pediam outra ordem

Lease of Life trouxe duas impressões simultaneamente verdadeiras: é uma excelente música e estava mal posicionada. Depois de o show finalmente construir uma crescente, a balada reduziu novamente a temperatura. Fábio Laguna, ao piano, quase nos faz esquecer a crítica pela delicadeza com que sustenta a canção. Mas houve um vazio perceptível: o solo de Diogo Mafra simplesmente não aconteceu. Quem conhece a música prepara o ouvido para aquela passagem, e ela não vem. Show ao vivo também é isso. No estúdio, grava-se novamente; no
palco, o segundo já passou.

Fotos por Eduardo Carvalho

Então surgiu The Ancestry e a primeira impressão foi imediata: era essa, Edu. Era essa a música para abrir o show! Tem imponência, identidade, movimento e tamanho. Mesmo recente, mobilizou o público mais do que Watchers of the Light. Victor Franco executou com precisão as linhas complexas concebidas por Roberto Barros, enquanto Thiago Bianchi acrescentou brilho à região mais aguda da composição sem soar como simples apoio.

Se Mi’raj precisava provar que possuía uma música capaz de sobreviver ao tempo, Unchained fez isso. Pessoalmente, é a melhor faixa do disco. Quiçá a melhor da carreira solo do Edu! Wagner Barbosa entrou com o saxofone, precedido por uma divertida brincadeira com Careless Whisper. Depois, o instrumento deixou de ser curiosidade e passou a conversar de verdade com o arranjo. Victor Franco entregou um solo belíssimo, Marcus Cézar fez a percussão crescer como se a música precisasse de mais um coração, e o disco novo deixou de disputar espaço com o legado para começar a construir o seu próprio. Que clássico ousado e magnífico já se tornou
Unchained!

Uma banda obrigada a falar muitas línguas

A banda-base merece ser lida como conjunto, porque a dificuldade daquela noite não estava apenas em tocar bem. Mitrium não é Symbols; Symbols não é Angra; Angra não é Almah; Vera Cruz, Eldorado e Mi’raj também pertencem a mundos diferentes. Diogo Mafra e Victor Franco precisaram alternar entre temas, bases e solos de épocas distintas; Raphael Dafras sustentou linhas de baixo que vão do peso de Ego Painted Grey ao ataque de Birds of Prey; Fábio Laguna foi essencial nas texturas das teclas e nos backing vocals; Jean Gardinalli enfrentou o desafio
ingrato de tocar repertórios marcados por lendas como Ricardo Confessori e Aquiles Priester; Marcus Cézar deu nova dimensão às composições mais cinematográficas. Técnica, aqui, era requisito básico. O que realmente importava era repertório musical, feeling e adaptação.

Fotos por Eduardo Carvalho

Jean merece ainda uma observação específica: os pratos que utiliza hoje têm personalidade sonora distinta daqueles associados às gravações clássicas. Em algumas passagens, essa diferença reduz um pouco daquela assinatura metálica gravada na memória de quem conhece profundamente os discos. Não pior, diferente. E memória musical também mora no timbre. Já Victor Franco, o “Kikinho” da brincadeira de Edu, confirmou porque se tornou peça tão
importante da fase atual: virtuoso, criativo e tecnicamente muito preciso.

Da trilogia ao Teatro Mágico

Leaving the Light recuperou o breve capítulo do Venus com Kao como convidado, enquanto a medley Land Ahoy / Eldorado trouxe Fábio Caldeira e condensou dois capítulos da trilogia solo em faixas muito características desta fase da carreira de Edu. A participação de Caldeira faz sentido para além do encontro de palco: ele ajudou a construir esse universo narrativo. A carreira solo de Edu já tem passado suficiente para ser revisitada dentro dela mesma, e isso diz muito.

Em The Voice Commanding You, Diogo e Victor construíram muito bem o diálogo de duas guitarras. Houve um pequeno desencontro no meio da execução, provocado por uma passagem antecipada ou suprimida por Edu, mas a recuperação foi rápida. É nesses segundos que profissionalismo deixa de ser palavra de release: músico bom não é quem nunca erra, mas quem encontra novamente a música antes que ela desmorone.

Fotos por Eduardo Carvalho

A entrada de Fernando Anitelli mudou completamente a linguagem da noite. Sintaxe à Vontade e Da Luta abriram uma janela para fora do heavy metal, antes que Intuição reunisse Anitelli, Edu, Tiago Mineiro e Rafael Bittencourt. Foi um dos grandes momentos do concerto. Ninguém tentou transformar Fernando em cantor de metal; ele trouxe seu próprio universo, e a canção em português ganhou uma naturalidade teatral que, ao vivo, cresceu muito além da gravação. Foi também um lembrete essencial: por trás de toda discussão sobre voz, existe um grande
compositor. Edu sabe construir temas, refrões e melodias que permanecem.

Faltou Almah. Sobrou história.

Felipe Andreoli entrou para Birds of Prey e trouxe imediatamente o peso de quem conhece a música por dentro, afinal gravou Fragile Equality. Foi excelente, mas uma única música do Almah é pouco para uma parceria tão importante. O projeto ocupa espaço grande demais na trajetória de Edu para aparecer como nota de rodapé. Se essa celebração continuar, há um território inteiro esperando para voltar ao palco.

Bleeding Heart trouxe uma das histórias mais brasileiras da noite. A composição ficou fora de Rebirth, reapareceu em Hunters and Prey e ganhou uma segunda vida fora do metal através do Calcinha Preta, transformada em Agora Estou Sofrendo. Edu juntou as duas existências. O público respondeu de imediato. Uma balada de power metal encontrando o forró romântico e, décadas depois, as duas versões dividindo o mesmo palco: talvez música boa seja exatamente aquilo que sobrevive quando deixa de pertencer a um único gênero.

Quando a noite finalmente pega fogo

Deus Le Volt! começou no PA e o corpo reconheceu antes da cabeça: Spread Your Fire. Aqui estava outra candidata óbvia a abertura. A reação foi imediata e o público finalmente se entregou sem reservas. Veronica Bordacchini apareceu nos vocais femininos, depois permaneceu sozinha em Ode to Art (de’ Sepolcri), exibindo alcance, projeção e controle impressionantes. Em seguida, voltou para Mi’raj, cuja execução foi prejudicada pelo volume excessivamente alto da casa. A ponto de bombeiros distribuírem protetores auriculares. Há momentos em que aumentar o som deixa de aumentar o impacto e começa a retirar definição.

Fotos por Eduardo Carvalho

Ainda assim, Edu e Veronica funcionaram muito bem juntos. E havia algo simbólico em ouvir a faixa-título de um disco que havia recebido 92 pontos da BURRN! japonesa, um ponto acima dos 91 atribuídos a Temple of Shadows. Nota não transforma automaticamente um álbum em obra maior, mas revela algo importante: 35 anos depois, o presente ainda consegue disputar atenção com o passado.

Dino Jelusick, memória afetiva e a família Angra

Dino Jelusick entrou para Heroes of Sand e ampliou uma música que já não precisa provar nada. Sua voz, mais áspera e dramática, contrastou muito bem com Edu. Depois, os dois atravessaram Stand Up and Shout, de Dio, e Here I Go Again, do Whitesnake, terreno especialmente natural para o croata. Fiquei com a sensação de que Stand Up and Shout poderia ter encerrado a noite com todos os convidados novamente no palco. Seria uma fotografia perfeita desses 35 anos.

Pegasus Fantasy convocou outra parte do público: a criança interior. Algumas músicas chegam pelo ouvido; essa chega pela memória. Para uma geração inteira, Cavaleiros do Zodíaco é infância, televisão, amizade e fantasia. Edu tornou-se parte dessa memória, e o Tokio Marine Hall cantou em uníssono como se ninguém ali tivesse a idade registrada no documento.

Fotos por Eduardo Carvalho

Então veio Rebirth. Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli retornaram ao palco, que já contava com Fábio Laguna e Edu. Não era 2001 novamente, e nem precisava fingir que fosse. Havia gente suficiente daquela história para que a memória completasse as fotografias. O reencontro ganhava ainda mais peso poucos meses depois do Bangers Open Air, quando antigas pontes voltaram a ser atravessadas. Alírio Netto também estava na plateia. A família Angra parecia espalhada pela casa, não como uma banda reunida, mas como uma história que continua encontrando seus personagens.

In Excelsis surgiu sem necessidade de anúncio e preparou Nova Era. Não houve bis, nem o ritual previsível de sair e voltar alguns minutos depois. Rafael e Felipe permaneceram no palco, a banda estava inteira e o público sabia que aquele era o ponto final. Às 00h10, três horas depois do início, o show parou. Porque terminar, propriamente, demorou um pouco mais.

Então, 35 anos cabem em três horas?

Não. E ainda bem. A ordem do repertório poderia ter sido melhor: a primeira metade teve momentos em que a temperatura subia e logo era reduzida, enquanto muitas das grandes catarses ficaram concentradas na reta final. Isso se torna ainda mais curioso porque a turnê nasceu com participação do público na escolha das músicas. Um repertório pode conter as músicas certas e ainda assim não ter necessariamente a ordem certa.

Também havia uma proposta de dividir o espetáculo em blocos conceituais, mas essas fronteiras não chegaram ao palco com a mesma nitidez. Uma dramaturgia mais evidente talvez ajudasse a organizar melhor a curva emocional. Faltou Almah, faltou mais Angra, faltaram músicas que alguém certamente considerava indispensáveis. Mas pense no problema inverso: quantos artistas brasileiros do heavy metal conseguem tocar por três horas, atravessar tantas
versões de si mesmos e ainda provocar reclamações porque faltou repertório importante? Isso não é escassez. É abundância.

Fotos por Eduardo Carvalho

E existe algo ainda mais relevante. Esta poderia ter sido uma noite inteiramente dominada pela nostalgia, mas não foi. Unchained foi um dos grandes momentos. The Ancestry poderia ter aberto o concerto. Echoes of Vows mostrou ambição composicional. Mi’raj está sendo reconhecido internacionalmente. A banda atual tem identidade. Há diferença enorme entre possuir legado e viver exclusivamente dele.

Talvez essa seja a imagem que levo do show: um homem olhando para várias versões de si mesmo. O garoto do Mitrium, o músico do Symbols, o vocalista que enfrentou comparações impossíveis no Angra, o compositor de Rebirth e Temple of Shadows, o fundador do Almah, o artista solo, o músico que precisou reaprender limites depois dos problemas vocais e o profissional que hoje permanece mais concentrado no centro do palco, mas ainda aceita
enfrentar três horas da própria história.

Sobretudo, permanece o compositor que continua escrevendo. Aos 35 anos de carreira, esse talvez seja o detalhe mais importante. Mi’raj prova que a frase ainda não terminou. Quando Glory of Love, de Peter Cetera, começou a tocar no som da casa e o público espontaneamente continuou cantando, o Tokio Marine Hall foi devolvendo todo mundo à realidade aos poucos. Como quem sai de uma lembrança sem querer sair.

Portanto, volte, Edu. Muitas outras vezes. Celebre. E celebraremos contigo.

Setlist de Edu Falaschi

  1. Watchers of the Light
  2. Ego Painted Grey
  3. Eyes in Flames (Symbols, com Tito Falaschi e Demian Tiguez)
  4. Echoes of Vows
  5. Running Alone
  6. Eyes of Time (Mitrium)
  7. Lease of Life
  8. Burden
  9. The Ancestry (com Thiago Bianchi)
  10. Unchained (com Wagner Barbosa no saxofone; introdução com trecho de Careless Whisper)
  11. A Monster in Her Eyes
  12. Leaving the Light (Venus, com Kao)
  13. Viderunt te Aquae
  14. Arising Thunder
  15. Land Ahoy / Eldorado (com Fábio Caldeira)
  16. The Voice Commanding You
  17. Sintaxe à Vontade / Da Luta (Fernando Anitelli)
  18. Blue Forever / Eternamente Azul (trecho à cappella)
  19. Intuição (com Fernando Anitelli, Rafael Bittencourt e Tiago Mineiro)
  20. Birds of Prey (Almah, com Felipe Andreoli)
  21. Bleeding Heart / Agora Estou Sofrendo
  22. Deus Le Volt!
  23. Spread Your Fire (com Veronica Bordacchini)
  24. Ode to Art (de’ Sepolcri) (Veronica Bordacchini)
  25. Mi’raj (com Veronica Bordacchini)
  26. Heroes of Sand (com Dino Jelusick)
  27. Stand Up and Shout (Dio, com Dino Jelusick)
  28. Here I Go Again (Whitesnake, com Dino Jelusick)
  29. Pegasus Fantasy
  30. Rebirth (com Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli)
  31. In Excelsis
  32. Nova Era (com Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli)

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