Texto: Thiago Tavares
Fotos: Ricardo Matsukawa/Mercury Concertes/Guns N’Roses
São Paulo tem uma relação particular com o rock pesado. Não é uma relação de admiração distante, do tipo que se observa de camarote com uma taça na mão. É uma relação visceral, suada, de quem acorda cedo no dia do show, enfrenta fila, atravessa a cidade inteira, compra uma água por dez reais sem reclamar muito e abre um sorriso largo quando as primeiras notas explodem no ar. É uma cidade que não vai ao show — ela vive o show.
E foi exatamente esse espírito que tomou conta do Allianz Parque no último dia 4 de abril de 2026. Antes mesmo de o relógio marcar 11h30, já havia gente de camiseta preta aglomerada nos arredores do estádio do Palmeiras, balançando a cabeça para o som que vazava dos testes de som, trocando histórias de shows passados, exibindo com orgulho as camisetas de edições anteriores do próprio Monsters. Havia veteranos que estiveram na estreia do festival no Brasil, em 1994, no Pacaembu — naquela que foi uma das noites fundadoras do rock pesado no país, com Kiss, Black Sabbath e Slayer num mesmo palco. E havia jovens de vinte e poucos anos que sequer tinham nascido naquele dia, mas carregavam nas costas a mesma fome de rock que move esse público há décadas.
Esse é o Monsters of Rock: um festival que não pertence a uma geração. Pertence a uma atitude.
Criado em 1980 na Inglaterra, o evento sempre se recusou a ser apenas mais um festival de verão. Desde o início, sua proposta era clara: reunir o melhor do hard rock e do heavy metal num único dia, sem concessões ao modismo, sem vergonha de ser grande e barulhento. Ao longo dos anos, o festival atravessou o Atlântico, chegou ao Brasil em 1994 e se tornou um dos eventos mais aguardados da cena nacional. Edições marcantes foram protagonizadas por Ozzy Osbourne, Iron Maiden, Motörhead, Judas Priest, Megadeth, Scorpions e Deep Purple, entre tantos outros titãs que pisaram nessas terras sob a bandeira do Monsters.
A nona edição brasileira do festival chegou carregando o peso dessa história e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de mostrar que o gênero não está preso ao passado. O lineup foi construído com essa dualidade em mente: de um lado, bandas que ajudaram a escrever os capítulos mais importantes do rock nas últimas cinco décadas; do outro, nomes que estão escrevendo os próximos. E o resultado, ao fim de quase doze horas de música, foi uma festa que justificou cada centavo gasto, cada hora de deslocamento, cada grito entalado na garganta desde a manhã.
O Allianz Parque não é um local fácil de dominar. Com capacidade para dezenas de milhares de pessoas, o estádio tem o tamanho certo para intimidar quem não está preparado. Neste sábado, nenhuma das sete atrações se intimidou.
Jayler: Quando o Futuro Chega Cedo
A primeira banda a pisar no palco foi o Jayler, quarteto inglês oriundo de West Midlands que a crítica especializada tem apontado como uma das apostas mais sólidas do rock contemporâneo. Com apenas um EP e um álbum de estreia às vésperas do lançamento, os rapazes tinham muito a provar — e provaram.
O vocalista James Bartholomew foi a revelação imediata do dia. Com uma voz que carrega a densidade e a urgência dos grandes cantores do rock clássico, o jovem conduziu o set com uma maturidade que não combina com a pouca idade. O grupo mesclou faixas do EP A Piece In Our Time com canções inéditas do disco Voices Unheard, previsto para maio, e conquistou gradualmente uma plateia ainda em processo de chegada ao estádio. Quem estava lá desde o início saiu satisfeito — e com o nome do Jayler anotado na memória.

Dirty Honey: Hard Rock com Sangue nas Veias
O segundo slot do dia coube ao Dirty Honey, banda americana que se tornou um dos porta-estandartes da nova geração do hard rock ao misturar o peso dos anos 80 com a urgência do presente. Com foco no disco Can’t Find The Brakes, o grupo entrou em cena com energia total e não desacelerou por 45 minutos.
O vocalista Marc LaBelle foi o coração pulsante do show. Além de uma performance vocal segura e potente, LaBelle demonstrou um carisma raro, descendo à plateia em determinado momento e transformando o estádio num espaço menor, mais íntimo, mais humano. Singles como “When I’m Gone” e “California Dreamin'” animaram quem já conhecia o trabalho da banda; para quem era estreante, o show funcionou como um convite irrecusável ao universo do grupo.


Yngwie Malmsteen: O Gênio e Seus Limites de Palco
A chegada de Yngwie J. Malmsteen ao palco foi recebida com entusiasmo pelos conhecedores do metal neoclássico — subgênero que o sueco ajudou a definir nos anos 80, ao unir a velocidade do heavy metal à estrutura harmônica da música erudita. Tecnicamente, o guitarrista continua sendo um fenômeno: seu domínio do instrumento não tem paralelo fácil no rock mundial.
No entanto, a apresentação encontrou algumas barreiras difíceis de ignorar. A ausência de um vocalista dedicado — com o tecladista Nick Marino dividindo o microfone — e a predominância de números instrumentais ao longo do set criaram um distanciamento entre o músico e boa parte do público, ainda em fase de chegada ao estádio. O ponto mais alto da apresentação foi a execução de “Far Beyond The Sun”, composição que resume tudo o que torna Malmsteen único. Para os iniciados, foi um presente. Para os demais, uma aula que faltou contexto para ser plenamente compreendida.


Halestorm: A Revelação da Tarde
Se havia uma banda capaz de surpreender até os mais céticos no Monsters of Rock 2026, essa banda era o Halestorm. Com a última passagem pelo Brasil datando de 2016, o quarteto liderado pelos irmãos Lzzy Hale e Arejay Hale voltou transformado — mais experiente, mais afiado e com um novo álbum, Everest, para apresentar ao público brasileiro.
A abertura com “Fallen Star” deu o tom: o show seria intenso, técnico e emocionalmente arrebatador. “Love Bites (So Do I)” — faixa premiada com um Grammy de Melhor Performance de Hard Rock/Metal em 2013 — transformou o Allianz numa arena de cantos coletivos. Em “Like A Woman Can”, Lzzy Hale assumiu também o teclado, reforçando uma versatilidade que vai muito além da voz poderosa que a tornou conhecida.
E que voz. Com drives e rasgados que pouquíssimos vocalistas no mundo conseguem executar ao vivo, Lzzy dominou o palco com uma presença que não pede espaço — ela simplesmente toma. “I Miss The Misery”, “Freak Like Me” e “I Get Off” encerraram o set numa crescente de adrenalina. O consenso entre a plateia foi unânime: Lzzy Hale foi a melhor vocalista da noite — e o Halestorm, possivelmente, a apresentação mais completa do festival.


Extreme: Chuva, Emoção e o Poder de uma Balada
A chuva que decidiu aparecer no fim da tarde não intimidou nem os músicos do Extreme nem o público que os aguardava. Gary Cherone e Nuno Bettencourt subiram ao palco molhado e entregaram uma hora de show que equilibrou virtuosismo técnico, repertório clássico e momentos de pura emoção coletiva.
Bettencourt segue sendo um dos guitarristas mais completos de sua geração — preciso nos riffs, brilhante nos solos, sempre a serviço da música sem jamais perder o senso de espetáculo. Cherone correspondeu com uma performance vocal vigorosa e uma energia de palco que desmentiu qualquer marca do tempo. O percurso pelos clássicos — “Decadence Dance”, “Get The Funk Out”, “Play With Me” — foi pontuado por faixas do recente álbum (Six), demonstrando que a banda não vive apenas da nostalgia.
Mas foi “More Than Words” que parou o tempo. Com dezenas de milhares de vozes cantando juntas no silêncio entre os versos, aquele momento sintetizou o que torna os grandes festivais de rock algo além de um simples show: são rituais coletivos, e o Extreme conduziu esse ritual com maestria.


Lynyrd Skynyrd: 90 Minutos de História Viva
Com 90 minutos de palco — generosidade raramente vista para uma banda de abertura do headliner —, o Lynyrd Skynyrd entregou aquela que muitos presentes classificaram como a melhor apresentação do dia. Sob o comando de Johnny Van Zant, a lendária banda de Jacksonville demonstrou que sua relevância não é apenas histórica: é presente, pulsante e genuína.
O set foi uma imersão no melhor do southern rock — “Workin’ For MCA”, “What’s Your Name”, “Call Me The Breeze”, “Gimme Back My Bullets”, “Simple Man” — executados com uma qualidade sonora impecável e uma intensidade emocional que não se ensaia. As tradicionais homenagens aos fundadores falecidos Ronnie Van Zant e Gary Rossington tocaram fundo até em quem não era fã de longa data. Continuar existindo, tocar ao vivo e honrar os mortos enquanto se celebra a vida: o Lynyrd Skynyrd faz isso melhor do que qualquer outra banda do planeta.


Guns N’ Roses: A Banda Mais Perigosa do Mundo Fecha o Dia em Grande Estilo
Quando as luzes do Allianz Parque se apagaram para o headliner, o ar mudou. Aquela tensão que antecede os grandes momentos — familiar a qualquer um que já esperou por um show que importa de verdade — tomou conta do estádio. E então veio “Welcome To The Jungle”, e setenta mil pessoas explodiram num grito só.
O Guns N’ Roses não precisa mais provar nada a ninguém. Mas provou mesmo assim, por mais de duas horas e meia, que continua sendo uma das forças mais irresistíveis do rock mundial. A surpresa logo na segunda música — “Slither”, do Velvet Revolver — indicou que a banda não viria apenas para cumprir protocolo. E não veio.
O repertório da noite trouxe de volta “Bad Apples”, ausente dos palcos desde a turnê do Use Your Illusion nos anos 90, e “Dead Horses”, igualmente rara nas setlists recentes. Uma versão de “Junior’s Eyes”, do Black Sabbath, homenageou a trajetória de Ozzy Osbourne de forma discreta e poderosa. Os clássicos incontornáveis — “It’s So Easy”, “Mr. Brownstone”, “You Could Be Mine”, “Civil War”, “November Rain”, “Sweet Child O’ Mine” — foram executados com a precisão e a grandiosidade que se espera, enquanto “Estranged” ganhou os tradicionais balões de golfinhos flutuando sobre a plateia em delírio.
Axl Rose, aos 64 anos, entregou uma performance fisicamente impressionante: correu pelo palco, dançou, gesticulou, reviveu trejeitos de décadas atrás com uma energia que contradiz qualquer prognóstico sobre seu suposto declínio. Vocalmente, os graves e médios seguem preservados com qualidade; os agudos históricos de sua juventude recorrem ao falsete, o que ao vivo, no contexto da emoção e do volume, passa com naturalidade para a grande maioria da plateia. E quando setenta mil pessoas cantam cada verso junto, a questão técnica torna-se, honestamente, irrelevante.
Slash foi o grande protagonista instrumental: compenetrado, inspirado, com solos que cruzam a fronteira entre técnica e poesia. Momentos como o riff de “Voodoo Child” de Jimi Hendrix entrelaçado ao final de “Civil War” lembraram o porquê de ele ser considerado um dos maiores guitarristas da história do rock. Duff McKagan segurou a base com a firmeza e a presença de sempre, e o baterista Isaac Carpenter confirmou, mais uma vez, ser a escolha perfeita para a posição que ocupa.
Às 23h05, “Paradise City” fechou a noite. Confetes no ar, gritos de satisfação, o cansaço bom de quem viveu algo que vale a pena lembrar.



Um festival da envergadura do Monsters of Rock merece, além dos elogios, uma análise honesta dos pontos que ainda têm espaço para evolução. O primeiro deles é o mais sentido no bolso: um copo d’água por R$ 10, uma latinha de refrigerante por R$ 14 e uma pequena porção de salgado por R$ 28 são valores que extrapolam qualquer justificativa razoável — sobretudo num evento de quase doze horas em que o consumo mínimo é inevitável. O público que já desembolsou quantias consideráveis nos ingressos não deveria ser submetido a uma segunda sangria dentro do estádio; uma política de preços mais justa, ou ao menos a liberação de entrada com garrafas d’água lacradas, seria um gesto elementar de respeito ao fã.
A dupla de apresentadores — o experiente Walcir, da Woodstock Discos, e o americano Eddie Trunk — também ficou aquém do potencial que a combinação sugeria: as transições entre as atrações foram breves e frias, sem interação real entre os dois, sem curiosidades sobre as bandas, sem dinâmicas com o público. Figuras com a trajetória que ambos carregam tinham material de sobra para enriquecer as pausas entre os shows e criar uma experiência mais envolvente.
Outra ausência que vale registrar é a de representação nacional no lineup: com raras exceções ao longo de sua história no Brasil, o Monsters of Rock tem privilegiado quase exclusivamente atrações internacionais, e o rock brasileiro tem nomes capazes de ocupar esse espaço com dignidade.
Por fim, relatos de longas filas nas catracas e pontos de checagem no início da tarde indicam que a logística de acesso ao estádio ainda carece de aprimoramento — numa programação que começa cedo, cada minuto perdido na fila é um minuto de show que alguém deixa de ver.
Feitas as ressalvas, o saldo do Monsters of Rock 2026 é amplamente positivo. O festival provou, mais uma vez, que o rock — com toda a sua história, suas contradições, seus excessos e sua beleza — ainda importa, ainda emociona, ainda arrasta multidões de madrugada para casa com a voz rouca e o coração cheio. Sete bandas, quase doze horas, um estádio que não parou de vibrar: é difícil pedir mais do que isso. Que venha a décima edição.
O Ponto Zero agradece a Catto Comunicação e a Mercury Concerts pela oportunidade de fazer a cobertura deste festival. Muito obrigado mesmo!












































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