All Metal Stars em São Paulo: uma noite que não acabou quando a última nota soou

Texto e Fotos por Eduardo Carvalho

Tem coisa que a gente sabe na hora.

Não precisa de tempo pra processar, nem de replay mental, nem de comparação com outros shows. A gente sente no corpo. E quando sente assim, já era. Aquilo não vai embora tão cedo.
O All Metal Stars, naquele 15 de março de 2026, foi exatamente isso.

Não foi um evento.

Foi um atravessamento. Eu cheguei cedo. E ainda bem.

Não por obrigação, mas por intuição. Algo dizia que aquela noite precisava ser vivida desde o começo.

Porque gosto e estou acostumado. Faz parte do ritual de ir a shows, principalmente os especiais. E este era especial!

O Krakenspit entrou sem rodeios, sem aquele ar de “vamos aquecer enquanto o público chega”. Não. Eles já chegaram com o palco ocupado. Peso firme, vocal seguro, guitarra de sete cordas preenchendo tudo com inteligência, e uma bateria que escapava do trivial, trazendo nuances progressivas que seguravam o ouvido.

Não era sobre impressionar.

Era sobre sustentar.

E sustentaram.

O público, que ainda estava se acomodando, foi sendo puxado. Não à força. Mas pela consistência.

Depois veio o Phornax.

E aqui a noite mudou de temperatura de vez.

Duas guitarras abrindo o som, deixando tudo mais largo, mais encorpado. E no fundo — ou melhor, no centro de tudo — a bateria com pedal duplo correndo solta, quase agressiva, quase urgente.

Edu Martinez é um nome que naturalmente chama atenção, mas o que ficou foi o coletivo. O impacto vinha do conjunto, da soma, do peso bem distribuído.

Quando eles saíram do palco, já não existia mais essa coisa de “show principal ainda vai começar”.

A noite já estava acontecendo.

22h01.

Eu lembro de olhar o relógio.

E lembro de não precisar mais dele depois.

Porque dali em diante, o tempo deixou de importar.

O All Metal Stars entra.

E antes de qualquer discurso, qualquer construção emocional, qualquer tentativa de criar clima:

Aquiles quebra um prato logo na primeira música!

Logo de cara. A pressão, a entrega, a porrada!

E aquilo não foi acidente.

Foi aviso. Até porque o Tripa Seca, roadie e técnico de som do Aquiles, trabalhou MUITO nesta noite!

O show não ia pedir licença.

A primeira sequência já veio como um golpe direto. Não só pelo peso das músicas, mas pela forma como elas se encadeavam. Não havia espaço vazio. Não havia respiro desnecessário. Era como se cada faixa puxasse a próxima, mantendo a chama acesa o tempo inteiro.

E isso fez toda a diferença.

Porque Andre Matos não cabe em pausas frias.

A música dele precisa de fluxo.

Precisa de entrega.

Precisa de continuidade emocional.

E ali, no meio de tudo isso, uma coisa ficou muito clara: ninguém estava tentando recriar o passado.

Edu Ardanuy talvez seja o melhor exemplo disso.

Vê-lo atravessando repertórios ligados a diferentes momentos da história do Andre já seria, por si só, algo marcante. Mas o que realmente impressionou foi o jeito.

Ele não tocou como quem copia.

Tocou como quem entende.

Os solos estavam lá. As músicas estavam lá. A essência estava preservada.

Mas havia vida.

Havia interpretação.

Havia identidade.

E isso é raro.

Porque é muito mais fácil se esconder atrás da fidelidade do que assumir o risco de tocar com personalidade.

Fábio Laguna, por sua vez, foi daqueles que sustentam tudo sem precisar chamar atenção o tempo inteiro.

Mas basta ouvir com cuidado.

O que ele faz não é acompanhamento.

É arquitetura.

E quando o show encontra aquele momento mais íntimo, mais reduzido, em piano e voz…

A casa muda.

Não fica mais silenciosa.

Fica mais profunda.

Saulo Xakol trouxe precisão. Linhas limpas, seguras, e um backing vocal que ajudava a dar corpo ao conjunto. E aí, de repente, o baixo ganha mais espaço. Um momento mais solto, mais groovado, com slap, que traz uma outra textura.

É detalhe.

Mas é aquele tipo de detalhe que transforma.

Guilherme Torres aparece como sinal de continuidade.

E isso, numa noite dessas, tem peso.

Quando Aquiles aponta para ele como nova geração, e isso vem respaldado por quem ajudou a construir a história lá atrás, não é só apresentação.

É reconhecimento.

É passagem.

Mas existe um ponto em que tudo isso deixa de ser análise.

E vira outra coisa.

Dani Matos entra.

E o ambiente muda.

Eu anotei durante o show uma frase que escutei Thiago Bianchi falar sobre Daniel Matos: “argamassa do projeto”.

E não consigo pensar em definição melhor.

Ele não está ali só como participação.

Ele está ali segurando tudo.

Dando liga.

Dando sentido.

Em alguns momentos, parece que o show se reorganiza ao redor dele.

E aí a música deixa de ser execução.

Vira vínculo.

E então vem o detalhe que, pra mim, muda tudo.

Thiago Bianchi anuncia alguém muito especial ali em cima, nos camarotes: a Senhora Sônia Coelho.

Mãe do Andre.

Assistindo.

Acenando.

Emocionada.

E emocionando.

Não precisa de anúncio.

Não precisa de luz direcionada.

Não precisa de discurso.

Só de saber que ela está ali já muda o peso da noite inteira.

Porque ali não é mais só público.

É família.

É origem.

É história olhando de volta para aquilo que foi construído.

E nesse momento você entende: isso não é só homenagem.

É devolução.

Aquiles, em vários momentos, demonstra entender exatamente isso.

Quando fala.

Quando apresenta.

Quando relembra.

Quando chama Dani.

Quando reverencia Sônia.

Ele não está conduzindo um show.

Está costurando memória.

As participações entram com naturalidade. Nada parece encaixado à força. Tudo flui dentro da proposta. As guitarras conversam. Não competem. Não disputam espaço.

Constroem juntas.

E isso é fundamental.

Porque esse repertório não sobrevive à vaidade.

Ele exige entrega coletiva.

Claro, nem tudo precisa ser perfeito.

E ainda bem.

Fica a sensação de que caberia mais. Outras fases. Outras músicas. Outros recortes. Avantasia. Virgo. Até o próprio Reason, que ficou de fora.

Mas isso não pesa como ausência.
Pesa como possibilidade.

E o projeto claramente não termina ali.

A banda já entrosada, no meio da tour. Estrutura robusta. Gravação acontecendo. Anderson Bellini presente, possivelmente envolvido na parte audiovisual. E um detalhe curioso que não passa batido: datas no Japão aparecendo no merch do Thiago Bianchi.

Isso tem continuidade.
Isso tem caminho.

Se existe uma provocação possível, ela passa por um detalhe técnico: algumas linhas de bateria do Shaman poderiam ter sido mais fiéis. São muito características, quase assinatura.

Mas talvez essa não seja a intenção.
Talvez a proposta nunca tenha sido reproduzir.
E sim reacender.

E aí, no fim, tudo se encaixa.
Porque o All Metal Stars não tenta fazer o impossível.
Não tenta ocupar o lugar do Andre.

Ele entende que esse lugar não se ocupa.
Se respeita.
E respeitar, naquela noite, foi tocar com verdade.
Foi não fugir da saudade.
Foi permitir que ela estivesse ali, em cada música, em cada silêncio, em cada olhar.

O show acabou.
Mas não terminou.

Setlist All Metal Stars

Unfinished Allegro (Angra)
Carry On (Angra)
Here I Am (Shaman)
Carolina IV (Angra)
Time (Angra)
Wuthering Heights (Angra)
Living for the Night (Viper)
Stand Away (Angra)
Make Believe (Angra)
Fairy Tale (Shaman)
Letting Go (Andre Matos Solo) – Piano & Voz
Lisbon (Angra)
For Tomorrow (Shaman)

Bis:

Nothing to Say (Angra)
Angels Cry (Angra)

Agradecimentos

Um evento dessa magnitude não acontece sozinho.

Registro aqui o reconhecimento à Arena Produtora, responsável por viabilizar essa noite, e à TRM Press, pela assessoria de imprensa que ajudou a dar visibilidade ao projeto. 

Ao projeto All Metal Stars, pela coragem de transformar homenagem em algo vivo, pulsante e digno.

À família de Andre Matos, pela generosidade em permitir que esse tributo aconteça — e, em especial, à Sônia Coelho, cuja presença silenciosa deu a essa noite um significado impossível de mensurar.

E, acima de tudo, ao próprio Andre.

Por tudo que construiu.

Por tudo que permanece.

Por tudo que ainda ecoa.

O legado segue vivo!

Viva All Metal Stars!

Viva Andre Matos!

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